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Listas de espera na atenção especializada não podem ser tratadas apenas como filas a reduzir

As listas de espera para consultas, exames e procedimentos especializados estão entre os problemas mais visíveis do SUS. Elas aparecem nas reclamações de usuários, nas cobranças de órgãos de controle, nas decisões judiciais e na cobertura da imprensa. No entanto, a forma como esse problema costuma ser descrito nem sempre ajuda a enfrentá-lo. Mais do que perguntar quantas pessoas aguardam atendimento, é preciso saber quem são essas pessoas, há quanto tempo esperam, qual risco correm, que informação receberam e se continuam precisando do procedimento solicitado.

Essa é a questão central do artigo “Listas de espera na atenção ambulatorial especializada: reflexões sobre um conceito crítico para o Sistema Único de Saúde”, publicado em 2025 nos Cadernos de Saúde Pública por Elaine Maria Giannotti, Marília Louvison e Arthur Chioro. De caráter ensaístico, o texto parte das reflexões teóricas e da experiência dos autores como gestores em diferentes esferas do SUS para discutir as listas de espera da Atenção Ambulatorial Especializada.

O artigo propõe quatro apontamentos. O primeiro questiona se as extensas filas de espera são, de fato, o principal problema para o acesso à atenção especializada. O segundo analisa os desafios para monitorar tempos de espera. O terceiro discute dispositivos regulatórios usados no manejo das listas com foco nas necessidades dos usuários. O quarto trata da transparência das listas para gestores, trabalhadores e população.

A distinção entre fila e lista de espera é um dos pontos conceituais do estudo. Filas podem ser organizadas por ordem de chegada, prioridade, risco ou outros critérios. Na saúde, entretanto, a simples ordem cronológica é insuficiente, porque os usuários apresentam necessidades diferentes. Por isso, os autores defendem que a atenção especializada deve trabalhar com listas de espera geridas de forma transparente, organizada por risco e voltada à produção do cuidado.

A lista de espera, nessa perspectiva, não pode ser um espaço de abandono. O artigo afirma que ela não deve funcionar como lugar de “não cuidado”, onde usuários são acumulados até um futuro incerto. Enquanto aguardam atendimento, essas pessoas precisam ser acompanhadas pela unidade solicitante, pelos serviços executantes e pelas centrais de regulação. Sem esse acompanhamento, a espera pode significar perda de oportunidade terapêutica, agravamento de doenças e aumento de desigualdades.

Os autores também chamam atenção para um equívoco recorrente: medir o problema apenas pelo tamanho da lista. Uma lista com muitos nomes não indica necessariamente maior gravidade se a oferta for suficiente para reduzir o tempo de espera. Por outro lado, uma lista pequena pode ser grave quando não há oferta disponível no território ou quando os usuários aguardam procedimentos com alto risco de agravamento. Dessa forma, o indicador central não deve ser apenas a quantidade de pessoas na lista, mas o tempo de espera e as consequências clínicas e sociais dessa espera.

Essa mudança de foco tem implicações para a gestão. Monitorar se a lista cresce ou diminui pode levar a interpretações enganosas. A lista pode diminuir porque a oferta se tornou tão escassa que os profissionais deixaram de encaminhar usuários. Também pode aumentar porque um novo serviço ampliou o acesso e passou a registrar demandas antes invisíveis. Portanto, reduzir ou “zerar” filas não deve ser tomado como objetivo isolado. A prioridade deve ser reduzir tempos de espera, qualificar encaminhamentos e garantir acesso oportuno para quem mais precisa.

O estudo ressalta ainda que as listas de espera do SUS estão frequentemente dispersas em diferentes sistemas, muitas vezes sem interoperabilidade. Há duplicidades, nomes de pessoas que já foram atendidas por outro caminho, usuários que não precisam mais do procedimento, registros incompletos e solicitações sem hipótese diagnóstica ou classificação de risco. Essa fragmentação dificulta a gestão, reduz a transparência e impede que as equipes acompanhem adequadamente os casos.

Para monitorar tempos de espera, os autores indicam que métricas como média, mediana e percentual de usuários atendidos em determinado prazo podem ser úteis, desde que analisadas com cautela. A média, por exemplo, pode esconder desigualdades quando há usuários esperando muito mais do que outros. Por isso, também é necessário observar desvios, tempos máximos, perfil dos usuários, classificação de prioridade e etapa do percurso assistencial em que a espera ocorre.

O artigo diferencia ainda vários momentos da espera: o tempo entre o encaminhamento e o agendamento; entre o agendamento e a execução do procedimento; e entre o encaminhamento e a conclusão de uma etapa diagnóstica ou terapêutica. Essa distinção é relevante porque o usuário pode atravessar sucessivas listas para consultas, exames e retornos, acumulando atrasos que não aparecem quando cada procedimento é analisado isoladamente.

Nesse ponto, o debate se aproxima das mudanças propostas pela Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde e pelo Programa Mais Acesso a Especialistas. Ao organizar ofertas integradas de cuidado, o PMAE busca reduzir a fragmentação entre consultas e exames isolados, com definição de prazos para conclusão de etapas diagnósticas em algumas linhas de cuidado. A proposta desloca a gestão da fila por procedimento para a gestão do percurso do usuário.

Entre os dispositivos regulatórios discutidos no artigo estão protocolos de encaminhamento, classificação de risco, matriciamento, telessaúde, reavaliação de usuários em espera, contato ativo com pacientes, qualificação da APS, integração entre solicitantes e executantes e transparência das informações. Esses instrumentos não têm apenas função administrativa. Eles ajudam a conhecer quem está na lista, identificar prioridades e evitar encaminhamentos desnecessários ou incompletos.

A transparência é tratada como dimensão decisiva. Para os gestores, ela permite conhecer gargalos, vazios assistenciais e desigualdades. Para trabalhadores, ajuda a organizar prioridades e acompanhar usuários. Para a população, oferece informação sobre a situação da solicitação, critérios adotados e tempo estimado de espera. Contudo, a transparência precisa respeitar dados pessoais e ser acompanhada de critérios clínicos claros para evitar exposição indevida ou interpretações simplificadas.

O artigo também situa o problema das listas no contexto mais amplo dos sistemas universais de saúde. A espera por procedimentos eletivos existe em vários países, porque nenhum sistema pode manter oferta imediata para toda demanda possível. O problema não é a existência da espera, mas a ausência de gestão, acompanhamento, prioridade clínica e cuidado durante esse período. Quando a espera se torna incerta, opaca e desassistida, ela deixa de ser mecanismo de organização e passa a produzir iniquidade.

Ao final, a reflexão proposta pelos autores desloca o debate público sobre filas no SUS. A pergunta não deve ser apenas quantas pessoas estão esperando, mas como o sistema conhece, prioriza, acompanha e informa essas pessoas. Nessa mudança de perspectiva, a lista de espera deixa de ser um estoque administrativo de demandas reprimidas e passa a ser um objeto de cuidado, gestão e responsabilidade pública.

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