Artigo

Estudo analisa como sistemas de saúde reorganizaram o acesso a leitos durante a pandemia

A pandemia de COVID-19 expôs, em diferentes países, a dificuldade dos sistemas de saúde para responder a uma demanda súbita e superior à capacidade instalada. O acesso a leitos hospitalares, especialmente em momentos de pressão sobre unidades de urgência, enfermarias e UTIs, tornou-se um dos pontos mais sensíveis da crise sanitária. Foi nesse contexto que pesquisadores analisaram quais arranjos tecnológicos de regulação foram mobilizados para organizar o cuidado e mediar a relação entre a necessidade dos pacientes e a oferta disponível de serviços.

Publicado em 2025 nos Cadernos de Saúde Pública, o artigo “Arranjos tecnológicos de regulação de acesso a leitos hospitalares no enfrentamento da pandemia de COVID-19: revisão de escopo” foi assinado por Mariana Prado Freire, Arthur Chioro, Fernando Tureck, Luís Fernando Nogueira Tofani, Letícia Gabriela da Silva, André Luiz Bigal, Amanda da Cruz Santos Vieira e Marília Cristina Prado Louvison. O estudo teve como objetivo mapear, sintetizar e categorizar experiências utilizadas na regulação do acesso a leitos durante a pandemia, incluindo desdobramentos na atenção ambulatorial e no cuidado a pacientes sem COVID-19, quando relacionados ao tema.

A pesquisa partiu de uma constatação central: em situações de crise, ampliar leitos e suspender procedimentos eletivos não basta para assegurar acesso oportuno. É preciso reorganizar fluxos, estabelecer critérios de admissão e transferência, criar canais de comunicação, usar tecnologias digitais e adaptar espaços físicos para que o sistema consiga responder à pressão assistencial. A regulação, nesse sentido, aparece menos como um procedimento administrativo e mais como uma função de gestão capaz de aproximar oferta e demanda em contextos de incerteza

Para chegar aos resultados, os autores realizaram uma revisão de escopo seguindo recomendações do Instituto Joanna Briggs e do protocolo PRISMA-ScR. A busca foi feita nas bases PubMed, Scopus, Embase, Web of Science e LILACS, entre julho e setembro de 2022, considerando publicações de 2020 a 2022. Ao todo, foram identificados 3.713 registros. Depois da remoção de duplicatas, triagem, leitura e aplicação dos critérios de exclusão, 45 artigos foram incluídos na análise final. A maior parte dos estudos veio dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia, com predomínio de publicações em inglês.

Os achados foram agrupados em três categorias principais: reorganização de serviços; uso de ferramentas virtuais e de inteligência artificial; e criação de espaços alternativos. Essa classificação permitiu mostrar que a resposta dos sistemas de saúde não dependeu apenas de novas tecnologias digitais, mas também de mudanças no processo de trabalho, reconfiguração de unidades existentes, implantação de protocolos, definição de fluxos diferenciados e articulação entre serviços.

A reorganização de serviços foi a categoria mais frequente. Ela apareceu em 32 dos 45 artigos analisados, o equivalente a 71% do total. Esse grupo inclui implantação de protocolos de triagem, admissão e transferência, alteração da oferta assistencial, realocação de profissionais, readequação de alas, criação de centrais de transferência e, em alguns contextos, requisição de leitos privados. A predominância dessa categoria indica que muitos sistemas responderam à pandemia usando recursos já existentes, mas com novas finalidades, novos fluxos e outra organização do trabalho.

A segunda categoria reuniu experiências baseadas em ferramentas virtuais e inteligência artificial. Esses arranjos incluíram telemedicina, telessaúde, monitoramento remoto, triagem digital, acompanhamento telefônico e sistemas de apoio à decisão. Em vários casos, essas estratégias ajudaram a reduzir internações desnecessárias, acelerar altas, monitorar pacientes fora do ambiente hospitalar e organizar prioridades em serviços sob pressão. O estudo mostra, contudo, que o uso da tecnologia depende de integração com processos assistenciais, equipes capacitadas e critérios regulatórios claros.

A terceira categoria tratou da criação de espaços alternativos de cuidado. Durante a pandemia, hospitais, hotéis, centros comunitários, áreas adaptadas e estruturas temporárias foram utilizados para isolamento, monitoramento, atendimento de baixa complexidade ou ampliação da capacidade assistencial. Essas soluções não substituíram a rede hospitalar, mas funcionaram como dispositivos para aliviar serviços sobrecarregados, organizar fluxos e reservar leitos hospitalares para pacientes com maior gravidade.

O artigo também chama atenção para um ponto conceitual relevante: os arranjos tecnológicos de regulação não devem ser entendidos apenas como máquinas, softwares ou sistemas informatizados. Eles incluem protocolos, relações entre equipes, fluxos assistenciais, mudanças organizacionais, uso de dados, comunicação e decisões tomadas no cotidiano dos serviços. Nessa perspectiva, regular o acesso a leitos significa produzir condições para que o cuidado aconteça no lugar adequado, no tempo adequado e com critérios defensáveis.

A revisão reforça que a pandemia deslocou a regulação para o centro da resposta sanitária. Em muitos países, a capacidade de reorganizar serviços, coordenar fluxos e monitorar pacientes foi tão decisiva quanto a expansão física de leitos. Ainda assim, os autores indicam desafios persistentes, especialmente em relação à regulamentação, ao financiamento, à equidade e à consolidação dessas experiências no período pós-pandêmico.

A equidade aparece como uma questão transversal. Embora vários arranjos tenham ampliado a capacidade de resposta dos sistemas, sua incorporação precisa considerar desigualdades territoriais, culturais, sociais e econômicas. Em países marcados por forte desigualdade, como os do Sul Global, a adoção de soluções tecnológicas sem atenção às condições reais de acesso pode reproduzir barreiras já existentes. Portanto, a inovação regulatória precisa ser acompanhada por políticas públicas capazes de reduzir assimetrias entre grupos populacionais e territórios.

Ao recuperar experiências internacionais produzidas sob pressão extrema, o estudo oferece elementos para pensar a regulação também fora do contexto emergencial. As soluções mapeadas durante a COVID-19 podem contribuir para desafios cotidianos dos sistemas de saúde, como filas, gargalos assistenciais, falta de integração entre serviços e dificuldades de acesso oportuno. A pandemia, nesse sentido, funcionou como um laboratório involuntário de reorganização do cuidado, cujas respostas ainda precisam ser avaliadas, financiadas e adaptadas às necessidades permanentes dos sistemas públicos de saúde.

.