Evento

Federalismo, tecnologia e participação social: novas fronteiras para a regulação

Por Davi Carvalho

Tradicionalmente associada à ordenação de fluxos — quem entra, quem espera, quem é atendido primeiro —, a regulação no Sistema Único de Saúde (SUS) é também um mecanismo de governança. Em um sistema de dimensões continentais, ela define como diferentes esferas de gestão se articulam para garantir coerência, acesso e equidade.

Esse foi o ponto de partida do seminário Desafios para a Política Nacional de Regulação em Saúde, realizado em 15 de agosto de 2025 pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). O encontro reuniu gestores, pesquisadores e representantes do Ministério da Saúde em torno de uma pergunta central: que tipo de regulação o Brasil precisa para enfrentar filas, desigualdades e o próprio pacto federativo?

O nó federativo e a contratualização

A representante do Ministério da Saúde, Débora Spanding Verdi, situou o debate ao afirmar que a revisão da Política Nacional de Regulação não deve se limitar a atualizar portarias de 2008 e 2017.

“Que ela possa, de fato, ser produtora do cuidado”, defendeu, ao propor que as centrais de regulação se tornem instâncias de articulação entre territórios, financiamentos e práticas clínicas.

Para Verdi, a regulação deve ser entendida como um eixo de governança tripartite, no qual União, estados e municípios compartilham responsabilidades. Ela destacou que, no contexto da saúde digital e da interoperabilidade de sistemas, a revisão precisa alinhar informação, contratos e gestão clínica — e não se restringir a “marcar consultas”.

René Santos, do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass), reforçou essa visão, mas com um alerta: protocolos clínicos, metas de tempo oportuno e ferramentas tecnológicas só terão impacto se estiverem vinculados a contratos que obriguem prestadores a cumprir padrões mínimos de atendimento.

“Inserir a atenção primária numa portaria que trate de regulação, para que defina claramente o seu papel”, afirmou, defendendo que a base do sistema esteja no centro da engrenagem.

Sem contratos sólidos e planejamento federativo, advertiu Santos, a regulação tende a reproduzir desigualdades regionais — o oposto do que deveria corrigir.

A base municipal e o cotidiano das filas

A gestora Elaine Giannotti trouxe o olhar das cidades, onde o federalismo se traduz em prática. É nos municípios que a regulação deixa de ser conceito e se torna cotidiano: equipes lidam com filas, encaminhamentos e pressões de demanda.

“O sujeito tem que ser o usuário”, afirmou, ao criticar a centralidade da chamada “regulação médica” e defender a ampliação do processo para equipes multiprofissionais.

Giannotti argumentou que Núcleos Internos de Regulação e teleinterconsultas permitem corresponsabilidade entre atenção básica e especializada, garantindo acompanhamento contínuo de pacientes em fila. É nesse nível, disse, que se revela a eficácia — ou o fracasso — da coordenação federativa.

O ex-ministro da Saúde Arthur Chioro aprofundou o debate ao afirmar que, sem enfrentar o problema federativo, nenhuma política de regulação se sustenta.

“Não basta ampliar a base de recursos financeiros […] nosso problema é de outra ordem”, afirmou.

Para ele, o ponto cego está na governança: redes de atenção só se organizam quando há contratos robustos, cooperação entre entes federativos e clareza sobre quem é responsável por quê. Sem isso, a regulação permanece como operação retórica em um sistema de mais de 5 mil municípios com capacidades desiguais.

A tecnologia apareceu como promessa recorrente, mas também como risco. Verdi defendeu que sistemas digitais interoperáveis e listas nacionais transparentes podem transformar a regulação em espaço de equidade.

Os demais expositores, porém, reforçaram que inovação não substitui arranjo político. Santos lembrou que plataformas digitais, sem contratos claros, apenas tornam mais visível a desigualdade. Giannotti observou que teleinterconsultas e prontuários eletrônicos só produzem resultados quando integrados a equipes comprometidas com o acompanhamento clínico. Chioro completou: a digitalização pode gerar a ilusão de modernização se não vier acompanhada de financiamento estável e de governança pactuada.

Democratização e controle social

Outro ponto de convergência foi a necessidade de democratizar a regulação. As listas de espera, historicamente invisíveis, devem se tornar públicas e monitoráveis — não apenas por gestores, mas também por usuários e conselhos de saúde.

“Estamos falando de pessoas que não podem esperar indefinidamente”, alertou Chioro, ao defender transparência e participação social como dimensões centrais.

Nesse sentido, a revisão da política é vista como oportunidade de vincular regulação a processos deliberativos e ampliar o controle social sobre fluxos e prioridades.

O seminário mostrou que o futuro da regulação depende menos de ajustes técnicos e mais da capacidade do país de lidar com três dilemas estruturais: a fragmentação federativa, a desigualdade de acesso e a apropriação da tecnologia.

Sem integração entre municípios, sem contratos pactuados e sem uso estratégico da informação, a política seguirá incapaz de produzir governança. O desafio, apontaram os participantes, é redefinir a regulação como função transversal — capaz de organizar pactos federativos, dar visibilidade às filas, garantir tempo oportuno e apoiar equipes multiprofissionais.

O ponto de chegada não é apenas uma nova portaria, mas um novo sentido político: fazer da regulação o eixo visível de coordenação do SUS, onde se traduz, de forma concreta, o compromisso do Estado com o direito à saúde.

.